O fuzileiro naval Alexandre Danielli, de 38 anos, natural de Santa Catarina, atuou na luta contra o Taleban pelos EUA e lamenta: "todo treinamento que nós fizemos não valeu a pena". O militar, hoje indenizado por ferimentos de guerra por danos sofridos no Afeganistão entre 2010 e 2011, conta que um dos esforços da missão era o de diminuir o medo dos afegãos, para que eles pudessem enfrentar as forças do Taleban. Danielli emigrou para os EUA ainda jovem e acabou recrutado pelas forças armadas americanas em 2008. Sua missão de dois anos em território afegão chegou a ser marcada por confrontos diretos. "Cheguei em 2010 [...]. Tivemos uma batalha em que perdemos muitos militares e foi quando o Taleban tinha sido encurralado em alguns locais".


Ele carrega consigo as memórias e traumas vividos, além das marcas permanentes em seu corpo, considerado comprometido na ordem de 85%, com sequelas de várias fraturas que sofreu em combates. Além de cicatrizes, o militar usa uma bengala para se locomover sem sentir tanta dor e realiza cirurgias a cada três anos para retirar fragmentos na parte de trás da perna direita, atingida por uma explosão em 2011.

"Quando eu morei [no Afeganistão] o povo afegão sempre falou que quando nós, militares, saíssemos de lá, seria o momento mais triste para eles. Porque eles têm um medo enraizado do Taleban", lembra o engenheiro militar e diretor empresarial que atualmente vive em Portland, no estado de Oregon (EUA), em entrevista concedida ao UOL.


Fracasso? A rápida tomada de poder do Taleban impressiona pelo fato de que os EUA passaram anos treinando o exército e a polícia afegã para prevenir justamente essa retomada. "[Mas] Eles tinham um medo muito grande", explica o catarinense, que classifica parte da ação no país como um fracasso do treinamento, que lhe traz incômodo.


"Para nós é triste saber que todo treinamento que a gente fez não valeu a pena, eles não conseguiram perder o medo do Taleban. Assim que eles invadiram [as províncias e capital Cabul], eles se entregaram ou fugiram". Tal medo é resumido em imagens que rodaram o mundo de afegãos invadindo pistas de aeroportos, subindo em aviões em plena decolagem e até caindo deles. Até mesmo os registros on-line da vida de quem vive no país começaram a ser apagados por precaução.


Danielli explica que isso é causado pela retaliação que as pessoas que viveram as últimas décadas sob ajuda da ONU (Organização das Nações Unidas), Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte), Europa ou EUA, possam sofrer por serem considerados "traidores do islamismo" pelo Taleban. "Eles sabem que se ficarem [no Afeganistão] vão morrer ou ser torturados".


O que sobra? O engenheiro não nega que além dos comprometimentos físicos, há traumas e frustrações relacionados a seu tempo no Afeganistão ainda a serem superados. "O primeiro combate que tive 'mano a mano' com um membro do Taleban, eu entrei em um dos quartos e ele tava mirando um AK-47 para mim e suando. Percebi que ele era novato e acabei conseguindo atirar primeiro. Até hoje tenho sonhos com essa mesma pessoa, consigo visualizar ele em câmera lenta. [...] É um fantasma que dominei", confessa o ex-combatente, que usa remédios para dormir.

"A gente sempre esteve frustrado, porque chegamos muito empolgados lá para ajudar as pessoas. Vimos que a cultura deles é muito diferente, percebemos que seria difícil mudar. Por isso, de 2010 a 2013, focamos em construir escolas para educar as crianças na nova geração", relatou Danielli, a respeito do trabalho dos soldados lutando junto às tropas da Otan e faz uma triste previsão: "Se o mundo não fizer algo, o Afeganistão vai virar novamente um terreno livre de treinamento e recrutamento para terrorismo".


O engenheiro diz ainda não ter certeza se o atual Taleban implementará um regime semelhante aos das décadas de 1970/80 ou se seria renovado, mas teme justamente pela nova juventude que pode ser convocada pelo grupo, mais uma das incertezas compartilhadas por pessoas de todo o mundo. "É importante ressaltar que o talibã é fundamentalista religioso, eles têm uma missão e acreditam que existam infiéis no mundo que são as pessoas de qualquer religião. Agora, a paz religiosa que existia, acabou", finaliza.